brunayukari

O guardador de carros

Em Uncategorized, dezembro 23, 2010 às 12:34 pm

I

Eu nunca guardei carros,

Mas ajo como se os guardasse.

Minha alma é de pastor de igreja,

Peço dinheiro e te ponho medo

Intimido-te até você me dar.

Todo bebum da rua

Vem sentar-se ao meu lado.

Mas eu preciso sair

Quando se sente a noite entrada

Pra tomar aquela pinguinha

Com seu dinheiro.

V

Há bastante metafísica em não fazer nada.

O que faço eu da vida?

Sei lá o que eu faço da vida!

Eu adoeceria se tivesse que trabalhar.

Que idéia tenho eu dos motoristas?

Que opinião tenho sobre os mauricinhos de carro?

Que tenho eu meditado sobre coação

E sobre agir como se fosse dono da rua?

Não sei. Pra mim pensar nisso é ter um cérebro

E ter vergonha na cara. É correr dos gambés

Que viriam atrás de mim (se eles estivessem ligando alguma merda pra isso).

Memórias Póstumas de Brás Cubas

Em Uncategorized, setembro 24, 2010 às 12:09 am

Pra quem não sabe, Brás Cubas é o povoado mais próximo de Mogi, um vilarejo tacanho de tão pequeno; e onde a malfadada historieta que narrarei ocorreu.

E digo malfadada, porque já é bem sabido que nada de póstumo é muito bom.

Vamos então, até a tão (pouco) afamada Mogi de algum tempo perdido no passado ou no futuro, não sei precisar; já que a fantasia com tom de veracidade é um luxo dispendioso de quem tem muita criatividade.

Nasce uma menina meio vermelhinha, tímida e introvertida; bobinha a coitada (Sim, essa sou eu), filha de uma virtuosa e recatada harpista mogiana (Sim, essa é mamãe) e de um pai violento e omisso que se auto-omitiu-se a si próprio depois de ter dado os primeiros acordes na harpa de mamãe.

O tempo passou e eu, essa menina bobinha, cresci e virei uma moça bonita; ainda bobinha, mas bonita. Sentia uma grandiosa admiração e amor por minha venerável e talentosa mãe; sempre entre dois adjetivos, coisa chique.

Certo dia, minha venerável e talentosa mamãe cansou-se de tocar sua harpa sozinha, e juntou sua solidão com a de um jovem escultor chamado Fauno. Fauno enlouquecia as donzelas com sua aparente indiferença, sempre ostentando uma boina surrada, que dizia ele, era seu charme de artista. O escultor era todo metido a ares europeus, apesar de brasileiro. Era bonito, mas frio, parecia feito de pedra. Ou seria impressão?

Certamente previsível, mas de forma incomum, (?) eu, à flor de minha mocidade, sem muitas delongas; cai de amores pelo companheiro de mamãe. O Fauno, desalmado e cafajeste, nem pestanejou, trocando a harpa de mamãe por meu ingênuo tamborim. Passamos longos meses nos amando cheios de culpa, não com tanta, porque sobrava espaço pra muito deleite. Mas o segredo não poderia continuar segredo por muito tempo. Tudo o que é bom (e imoral, diga-se de passagem) dura pouco. E foi o que aconteceu.

Em uma tarde nublada (Gosto de tempo nublado, ensolarada é muito clichê, e chuvosa muito dramática), estávamos eu e Fauno à beira de um riacho, onde nos encontrávamos amiúde para perpetrar nosso quase incestuoso romance. Estava o Fauno a ler-me um conto, e eu inclinei-me para um beijo, quando mamãe, estupefata, me freou a ação com um “Oh!”. Grande foi minha surpresa ao vê-la; e tentar explicar, ainda mais sendo boba como eu era, seria inútil. Mamãe retirou-se com dignidade, como se tivesse encerrado uma apresentação. O Fauno deu de ombros. Eu fiquei sem fala. Ouviu-se uma vaca mugindo ao longe. Um sapo coaxou.

Dias depois, fui à procura de mamãe, que estava desaparecida desde então. Todo o povoado ficou combalido. Olhavam-me com desprezo. Já não podia suportar tal peso, acrescido pelo fato de que a essa altura, o Fauno foi-se embora do vilarejo. Uns dizem que hoje, o escultor não passa de um pobre coitado que passa seus dias sentado em um parque, de nome Trianon, vendo casais sentados nos bancos e observando lunáticos que acariciam esculturas. Estranho.

Terminei minha longa e quase infindável busca – que só não foi infindável salvo pelo fato de ela ter se findado quando a encontrei -  quando a vi sentada de costas, à sombra de uma àrvore e às margens de um riacho (outro!) rosto abatido (como sei do rosto se ela estava de costas? Poxa, eu conheço mamãe!), tocando sua harpa de modo melancólico e belo como sempre. Fiquei observando-a, e só o que pude sentir foi dor e culpa, por um momento interminável. Sua harpa emitia arpejos de tamanha harmonia, de modo que os acordes tão afinados e dolorosamente constantes ecoaram em minha mente, me fazendo pensar em como havia sido vil e cruel. Como que hipnotizada, só pude pensar em vingança. Me vingar de mim mesma pra mamãe. Como é duro ser bobinha.

É claro que na verdade, esse momento também terminou, e terminou quando os arpejos de mamãe me levaram ao suicídio.  Dei cabo de minha pérfida e caluniosa existência me enforcando com uma corda de harpa. O dono do comércio próximo teve maior prazer em me ceder uma corda de harpa depois que lhe contei a finalidade. O bom samaritano até ajeitou a corda pra que eu me enforcasse, na árvore em cuja sombra minha mãe arpejava minutos antes. Fui sepultada no Vilarejo vizinho de Mogi, Brás Cubas, onde a encontrei. Mamãe, que já ia meio insana, nem ficou sabendo da minha morte. E se soubesse, creio que iria ao enterro pra aproveitar a corda da harpa, que eu fiz questão com o bondoso comerciante de que fosse sepultada comigo. Justo. Não houve honras, nem nenhuma cerimônia. Depois que ficou sabendo de minha história, nem o coveiro se deu muito trabalho, jogou umas sete pás de terra em cima do meu caixote e foi-se embora me caluniando. Tudo bem, sendo verdade o que ele dizia, nem era mesmo uma calúnia.

E se essa historia tem registro – dito-a aqui do além ou de onde quer que seja o lugar de onde falo, saiba apenas que são póstumas as palavras – é pra que se tome nota da lição contida em minha tão desditosa história: Roubar namorado de mãe é coisa muito feia.

Fim.

Paródia de Shakespeare

Em Uncategorized, setembro 24, 2010 às 12:08 am

Shall I compare you to a summer’s day?

You are certainly and by far worse

And I do hate summer above all things

in heaven and earth than is dreamt in you philosophy.

I’d rather be an untamed shrew than to be your Juliet.

But let’s not make much Ado about nothing

It was but a Midsummer’s night dream

And All’s well that ends well.

We are apart now, be As you like it

That’s the way it was supposed to be.

I wouldn’t want to turn our romance into a Comedy of errors.

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